16/09/2009

A Ideologia da Globalização: "O sonho obriga o homem a pensar”.

A Globalização é um fenômeno capitalista e complexo que começou na Era dos Descobrimentos Europeus (século XV e XVII) e desenvolveu-se a partir da Revolução Industrial (século XVIII e XIX). O seu conteúdo passou despercebido por muito tempo, e hoje muitos economistas analisam esse fenômeno como resultado do pós Segunda Guerra Mundial, ou como resultado da Revolução Tecnológica. O conceito de Globalização e "Aldeia Global" surgiu em meados da década de 1980 e diz respeito à interdependência de todos os povos e países do nosso planeta. A expressão tem sido utilizada mais recentemente num sentido marcadamente ideológico, na qual se assiste no mundo inteiro a um processo de integração econômica sob a égide do neoliberalismo, caracterizado pelo predomínio dos interesses financeiros, pela desregulamentação dos mercados, pelas privatizações das empresas estatais, e pelo abandono do estado de bem-estar social.
É impossível tratar desse tema sem buscar referências na obra do Prof. Dr. Milton Santos (1926-2001), renomado geógrafo baiano, advogado, consultor da ONU, UNESCO e OIT e possuidor de 13 títulos de doutor honoris causa, recebidos no Brasil, França, Argentina e Itália, entre outros. Ele foi um desses raros pensadores brasileiros cujas reflexões e produção teórica repercutiu não só além das fronteiras do país, como também além do âmbito de sua comunidade profissional. Intelectual comprometido com os grandes problemas e questões de seu tempo, sobretudo com aquelas parcelas da população marginalizadas pelo perverso processo de Globalização ainda hoje em curso; deixou sua marca de indignação e revolta por todos os meios e instrumentos nos quais teve a oportunidade de manifestar suas idéias. O Prof. Dr. Délio Mendes (2001) salienta que Milton Santos se mostrou mais crítico no livro “Por uma outra globalização - do pensamento único à consciência universal” (2002), onde nos aponta para um mundo de difícil percepção por conta da confusão reinante que nos tem levado à perplexidade. Portanto, toma para análise a realidade relacional do ser humano, e a esta realidade relacional perversa atribui os males revelados pelo território. Não aceita explicações mecanicistas pelo seu caráter insuficiente. Atribuindo ao desenrolar da história, capitaneada por determinados segmentos da sociedade, os males que tornam difícil a vida da maioria das mulheres e dos homens. Coloca na base deste processo confuso a tirania do dinheiro e da informação, transcende a Marx, e o dinheiro passa a produzir dinheiro, dominando o mundo da produção de mercadorias. Especulação, financeirização. A Globalização é feita menor, sob a égide dos bancos e dos banqueiros, criando uma fábrica de perversidades.
Para compreender os efeitos culturais da Era da Globalização em que vivemos é interessante conhecer a interpretação multidisciplinar do mundo contemporâneo proposta por Milton Santos e sumarizada abaixo, onde ele realça o papel atual da ideologia na produção da história e nos traz uma mensagem de esperança na construção de um novo universalismo, bom para todos os povos e pessoas:
- Estamos convencidos de que a mudança histórica em perspectiva provirá de um movimento de baixo para cima, tendo como atores principais os países subdesenvolvidos e não os países ricos; os deserdados e os pobres e não os opulentos e outras classes obesas; o indivíduo liberado partícipe das novas massas e não o homem acorrentado; o pensamento livre e não o discurso único.
- Vivemos num mundo confuso e confusamente percebido. De um lado, é abusivamente mencionado o extraordinário progresso das ciências e das técnicas, das quais um dos frutos são os novos materiais artificiais que autorizam a precisão e a intencionalidade. De outro lado, há também, referência obrigatória à aceleração contemporânea e todas as vertigens que cria, a começar pela própria velocidade.
- Quando tudo permite imaginar que se tornou possível a criação de um mundo veraz, o que é imposto aos espíritos é um mundo de fabulações, que se aproveita do alargamento de todos os contextos para consagrar um discurso único.
- Se desejamos escapar à crença de que esse mundo assim apresentado é verdadeiro, e não queremos admitir a permanência de sua percepção enganosa, devemos considerar a existência de pelo menos três mundos num só. O primeiro seria o mundo tal qual nos fazem vê-lo: a globalização como fábula; o segundo seria o mundo tal como ele é: a globalização como perversidade; e o terceiro, o mundo como ele pode ser: uma outra globalização.
- Fala-se em aldeia global para fazer crer que a difusão instantânea de notícia realmente informa as pessoas. A partir desse mito e do encurtamento das distâncias (para aqueles que realmente podem viajar), também se difunde a noção do tempo e espaço contraídos (é como se o mundo se houvesse tornado, para todos, ao alcance da mão). Um mercado avassalador dito global é apresentado como capaz de homogeneizar o planeta quando, na verdade, as diferenças são aprofundadas. Há uma busca de uniformidade, ao serviço dos atores hegemônicos, mas o mundo se torna menos unido, tornando mais distante o sonho de uma cidadania verdadeiramente universal. Enquanto isso, o culto ao consumo é estimulado.
- Esses poucos exemplos, recolhidos numa lista interminável, nos permitem indagar se, no lugar do fim da ideologia proclamado pelos que sustentam a bondade dos presentes processos de globalização, não estaríamos, de fato, diante da presença de uma ideologização maciça, segundo a qual a realização do mundo atual exige condição essencial para o exercício de fabulações.
- Para a grande maior parte da humanidade a Globalização está se impondo como uma fábrica de perversidades. O desemprego crescente torna-se crônico. A pobreza aumenta e as classes médias perdem em qualidade de vida. O salário médio tende a baixar. A fome e o desabrigo se generalizam em todos os continentes. Novas enfermidades se instalam e velhas doenças, supostamente extirpadas, fazem seu retorno triunfal. A mortalidade infantil permanece, a despeito dos progressos médicos e da informação. Alastram-se e aprofundam-se males espirituais e morais, como os egoísmos, os cinismos e a corrupção.
- Podemos pensar na construção de um outro mundo, mediante uma Globalização mais humana. As bases técnicas que o grande capital se apóia para construir a globalização perversa mencionada, poderão servir a outros objetivos, se forem postas ao serviço de outros fundamentos sociais e políticos.
- Agora que estamos descobrindo o sentido de nossa presença no planeta, pode-se dizer que uma história universal verdadeiramente humana está, finalmente, começando. A mesma materialidade, atualmente utilizada para construir um mundo confuso, pode vir a ser uma condição da construção de um mundo mais humano. Basta que se completem as duas grandes mutações ora em gestação: a mutação tecnológica e a mutação filosófica da espécie humana.
- A grande mutação tecnológica é dada com a emergência das técnicas da informação, as quais são constitucionalmente divisíveis, flexíveis e dóceis, adaptáveis a todos os meios e culturas, ainda que seu uso perverso esteja subordinado aos interesses dos grandes capitais. Mas, quando sua utilização for democratizada, essas técnicas estarão ao serviço do homem.
- Muito se fala hoje nos progressos e nas promessas da engenharia genética, que conduziriam a uma mutação do homem biológico, algo que ainda é do domínio da história da ciência e da técnica. Pouco, no entanto, se fala das condições, também hoje presentes, que podem assegurar uma mutação filosófica do homem, capaz de atribuir um novo sentido à existência de cada pessoa e, também, do planeta.
A utopia é pertinente, a GLOBALIZAÇÃO DE TODOS é um projeto irreversível da humanidade.

Referências:
SANTOS, Milton. Por uma outra globalização - do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record, 2002
MENDES, Délio. Milton Santos: Por uma outra globalização - a de todos. Revista Política Democrática, Brasília, Ano 1, n.2, p.191-197, 2001.
CARVALHO, M. B. "Milton Santos: intelectual, geógrafo e cidadão indignado". In: El ciudadano, la globalización y la geografía. Homenaje a Milton Santos. Scripta Nova. Revista electrónica de geografía y ciencias sociales, Universidad de Barcelona, vol. VI, núm. 124, 30 de septiembre de 2002.
http://www.ub.es/geocrit/sn/sn-124.htm

2 comentários:

Alice Senna disse...

Oi Jorge! Não nego que adoro ler os pensadores que seguem um caminho mais voltado para a integração, revelando uma percepção de 360 graus ao olhar os dados da realidade e conseguem nos fazer entender essa mesma realidade a partir da correlação dos fatos históricos. Mas, só consigo ver a humanidade hoje caminhando em circulos... Mudam-se pessoas, locais, datas, mas a história se repete... indefinidamente. Avança-se em tecnologia o que proporciona, em teoria, mais qualidade de vida às pessoas, tempo médio de vida maior, produção de mais e mais conhecimentos, informações em tempo real etc etc... Mas, a história se repete...Bjs

Anônimo disse...

muito boa essa matéria. parabéns