06/02/2011

Janelas de Paradoxos (KOANS):

"A ONDA VIVE A VIDA DE UMA ONDA E, AO MESMO TEMPO, A VIDA DE ÁGUA", disse o mestre. O ZEN-BUDISMO nos ensina que nosso ser, aparentemente separado, é como uma onda individual que se ergue e se dispersa no grande oceano da Vida. Como uma onda, nós somos impulsionados para frente pelas correntes profundas da vida. Se a nossa experiência se restringe apenas à superfície das coisas, achamos que somos a onda. E, como onda, nos sentimos sendo arrastados pela vida e temos medo de nos espatifarmos contra os rochedos da costa. Se a nossa experiência desce às profundezas das coisas, sabemos que somos o oceano todo, e a ansiedade desaparece. As ondas vêm e vão, mas o oceano permanece. (Zen Koans)
“PARA ONDE VAI O MEU PUNHO, QUANDO EU ABRO A MÃO?”.
O KOAN é um pequeno enigma ZEN, contraditório ou paradoxal, de solução aparentemente irresolúvel numa análise lógica, seu objetivo é apreender a nossa verdade interior e para cada pessoa a solução do KOAN é única, pois ela deriva da intuição e do estado de consciência com que o encaramos.
“SE TUDO SE REDUZ A UNIDADE, A QUE SE REDUZ A UNIDADE?”
KOANS são narrativas ZEN, parábolas acessíveis a uma mente intuitiva que pretenda a iluminação, é, na verdade, um convite para superar a mente comum, um artifício para impelir a consciência para a iluminação. Trata-se de uma forma de treinamento utilizadas no ZEN para quebrar a mente lógica e trazer a tona a intuição e o insight.
“QUAL O SOM DE UMA SÓ MÃO BATENDO PALMAS?”
Os KOANS são normalmente postos como uma charada paradoxal, uma narrativa, diálogo, interrogação ou afirmação e o praticante deve resolvê-lo através de reflexão, pistas dadas pelo mestre e a própria experiência pessoal. É necessário envolvimento e concentração, conseguir aliar o coração à mente e silenciosamente encontrar a resposta.
Em outras palavras, são uma espécie de perguntas, quebra-cabeças ou questões levantadas pelo mestre para o discípulo com o objetivo de levá-lo à reflexão essencial que subjaz às conclusões lógicas. O sentido libertário e paradoxal dos KOANS também pode ser discernido em pequenas frases, histórias, ou mesmo poemas da cultura ZEN. Sem dúvida é um dos mais profundos exercícios de transcendência da racionalização.
“UM JARRO AO SE ESPATIFAR NO CHÃO, AINDA ASSIM É UM JARRO INTEIRO DESENHADO NO AR”.
Na perspectiva de Rubem Alves, KOANS são “rasteiras” que os mestres passavam no pensamento dos discípulos, porque sabiam que só se aprende o novo quando as certezas velhas caem.
"QUEM É AQUELE QUE ESTÁ SÓ NO MEIO DE DEZ MIL COISAS?".
Um KOAN é um paradoxo, mas que, para ser explicado, exige de nós estudos e reflexões que vão além do pensamento linear e da lógica no qual se concretizam. Em suma: KOANS são fenômenos complexos difíceis de explicar por paradigmas cartesianos e mecanicistas (Lorenz, 1996).
Para os meus trabalhos com grupos de crescimento construo KOANS que denomino de “Janelas de Paradoxos” em que o humor e o “non sense” são utilizados para perturbar a lógica habitual do discurso e, com isso, abalar a visão rotineira da realidade, permitindo uma compreensão intuitiva e imediata dos fenômenos grupais:
Abaixo transcrevo alguns deles:
- O QUE DIZER DA ATRAÇÃO EXISTENTE ENTRE OS VÁRIOS PONTOS QUE FORMAM UMA LINHA?...
- É POSSÍVEL REFLETIR SOBRE O DISTANCIAMENTO DO DEDÃO DO PÉ EM RELAÇÃO AO COURO CABELUDO?...
- EM DETERMINADAS OCASIÕES E CONTEXTOS É POSSÍVEL PERCEBER A VANTAGEM DE RETORNAR AO PONTO DE PARTIDA...
- HÁ QUEM DEFENDA A IDÉIA DE QUE A SOLUÇÃO PODE SER O PRÓPRIO PROBLEMA...
- QUAIS SERIAM AS CONSEQÜÊNCIAS DE ACHAR AQUILO QUE NUNCA FOI PERDIDO?...
- HÁ UMA GRANDE PROBABILIDADE DA ROTA PARA CIMA E PARA BAIXO SER A MESMA ROTA...
- É IMPORTANTE CONSTATAR QUE O BARBEIRO SÓ FAZ A BARBA DAQUELES QUE NÃO SE BARBEIAM A SI PRÓPRIOS...
- NO CÍRCULO, O PRINCÍPIO E O FIM SE CONFUNDEM...
Quando sua mente achar saídas para essas questões, agradeça-lhe, mas, ignore-as, retome a pergunta ou a afirmação e continue buscando outras respostas com diferentes perpectivas. É como responder com a não-resposta...
“Certa vez, um Grande Mestre estava sentado (em meditação), perguntou-lhe um monge:
O que você está pensando, (sentado aí) tão fixamente?
O mestre respondeu: Estou pensando no não-pensar.
O monge perguntou: Como você pode pensar no não-pensar?
O mestre respondeu: Não-pensando

1 comentários:

Alice Senna disse...

Oi Jorginho. Muito legal essa postagem. Pensar nos koans como desafios para que a mente cartesiana silencie e dê passagem a uma mente mais intuitiva é fantástico. Silenciar, silenciar, adentrar um mundo conduzido por uma lógica diferente daquela que o ocidente nos fez cristalizar e que nos torna tão competitivos e nos mantem tão fragmentados, é um desafio que, às vezes, me parece impossível. Ainda mais quando me deparo com os desafios da sobrevivência e sobrevivência. Grande beijo.